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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PÁSCOA DE FREI JOÃO PEREIRA, OFM

Faleceu hoje, 31 de janeiro, no inicio da manhã, aos 83 anos de idade, Frei João Pereira de Souza, OFM. Natural da cidade de Independência, no Ceará, Frei João fazia parte da Fraternidade de Nossa Senhora das Neves, em Olinda-PE e já encontrava-se hospitalizado há três meses. 

A vida de Frei João Pereira é, sem dúvida, testemunhal como frade menor. Viveu experiências radicais de inserção com demais confrades em comunidades do interior do Nordeste, buscando ser fiel a essência do carisma franciscano. Inquieto com as palavras do pobrezinho de Assis de “não tocar em dinheiro”, procurou seguir à risca o conselho do Pai seráfico e colocar em prática seu ensinamento. 

Foram duas experiências no interior de Pernambuco: de 1977 a 1984 e de 1990 a 2000 em Negras, Município de Itaíba; e no Ceará, de 1985 a 1990, em Ipoporanga, Diocese de Crateús. Nestas comunidades não faltou a solidariedade do povo sertanejo, que repartia o pouco que tinha com os irmãos franciscanos. A Fraternidade comprometia-se com a evangelização, criando grupos de base, apoiando as organizações populares, dinamizando as celebrações, incentivando o protagonismo dos leigos, promovendo mutirões para construção de capelas e colégios, fazendo acontecer a caminhada das CEB’s nestas regiões. 

Como irmão leigo Frei João Pereira também marcou a história da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil. Num período em que aos irmãos de opção laical eram limitadas as opções de formação, Frei João lutou por uma formação igualitária para frades clérigos e leigos, fomentando a reflexão sobre esta vocação tão cara ao carisma franciscano. Ainda em 1964, em plena renovação conciliar, escreveu: “O irmão é antes de tudo, um monumento de Deus e um testemunho para o mundo, sendo insubstituível na função que decorre do próprio Evangelho.” 

Frei João Pereira foi um desbravador: foi o primeiro irmão leigo a quem foi confiada, em 1967, a Formação do Juvenato (antiga preparação para os candidatos a vida religiosa franciscana) e o primeiro Definidor Provincial irmão leigo. Deu significativa contribuição para aprofundar e fortalecer a identidade da vocação religiosa franciscana leiga. 

Frei João Pereira de Souza, OFM Contemplando toda essa caminhada, Frei João afirmou em 1992: “Hoje, em nossa Província, há vários Irmãos guardiães, mestres de postulantes e sempre um Definidor na direção da Província. Todo o trabalho vocacional ou educacional é assumido por todos e para todos, sem privilégios e sem discriminação. Para isso, tenho consciência de ter dado a minha contribuição. Se não dei tudo que poderia ter dado, ao menos dei o que dei”. 

˜Frei João Pereira de Souza, OFM * 30/11/1929 + 31/01/2013

Fonte: http://www.ofmsantoantonio.org/?p=1142

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

12º RETIRO FRANCISCANO DE CARNAVAL



DE 09 A 13 DE FEVEREIRO DE 2013
CONVENTO DE IPUARANA - LAGOA SECA/PB

INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES NO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO DO RECIFE - RUA DO IMPERADOR, 206 - AO LADO DO PALÁCIO DA JUSTIÇA.

TELEFONE: 081 3224-0493 FALAR COM GRAÇA

PESSOAS DE OUTROS ESTADOS PODERÃO INSCREVER-SE NA CHEGADA AO RETIRO.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


BEM-AVENTURADOS OS CONSTRUTORES DA PAZ

1. Cada ano novo traz consigo a expectativa de um mundo melhor. Nesta perspectiva, peço a Deus, Pai da humanidade, que nos conceda a concórdia e a paz, a fim de que possam tornar-se realidade, para todos, as aspirações duma vida feliz e próspera. À distância de 50 anos do início do Concílio Vaticano II, que permitiu dar mais força à missão da Igreja no mundo, anima constatar como os cristãos, Povo de Deus, em comunhão com Ele e caminhando entre os homens, se comprometem na história compartilhando alegrias e esperanças, tristezas e angústias, anunciando a salvação de Cristo e promovendo a paz para todos. Na realidade, o nosso tempo, caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos, e também por sangrentos conflitos ainda em curso e por ameaças de guerra, requer um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo homem e do homem todo. Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado. Além de variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional, põem em perigo a paz aqueles fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião, chamada a favorecer a comunhão e a reconciliação entre os homens. E, no entanto, as inúmeras obras de paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem-sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é feito para a paz, que é dom de Deus. Tudo isso me sugeriu buscar inspiração, para esta Mensagem, nas palavras de Jesus Cristo: “Bem-aventurados os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9). 

A bem-aventurança evangélica 

2. As bem-aventuranças proclamadas por Jesus (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) são promessas. Com efeito, na tradição bíblica, a bem-aventurança é um gênero literário que traz sempre consigo uma boa nova, ou seja um evangelho, que culmina numa promessa. Assim, as bem-aventuranças não são meras recomendações morais, cuja observância prevê no tempo devido – um tempo localizado geralmente na outra vida – uma recompensa, ou seja, uma situação de felicidade futura; mas consistem, sobretudo, no cumprimento de uma promessa feita a quantos se deixam guiar pelas exigências da verdade, da justiça e do amor. Frequentemente, aos olhos do mundo, aqueles que confiam em Deus e nas suas promessas aparecem como ingênuos ou fora da realidade; ao passo que Jesus lhes declara que já nesta vida – e não só na outra – se darão conta de serem filhos de Deus e que, desde o início e para sempre, Deus está totalmente solidário com eles. Compreenderão que não se encontram sozinhos, porque Deus está do lado daqueles que se comprometem com a verdade, a justiça e o amor. Jesus, revelação do amor do Pai, não hesita em oferecer-Se a Si mesmo em sacrifício. Quando se acolhe Jesus Cristo, Homem-Deus, vive-se a jubilosa experiência de um dom imenso: a participação na própria vida de Deus, isto é, a vida da graça, penhor duma vida plenamente feliz. De modo particular, Jesus Cristo dá-nos a paz verdadeira, que nasce do encontro confiante do homem com Deus. A bem-aventurança de Jesus diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana. Na verdade, a paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teórico-práticos meramente subjetivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autônoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce, cuja medida não é criada pelo homem, mas por Deus. Como lembra o Salmo 29, “o Senhor dá força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com a paz” (v. 11). 

A paz: dom de Deus e obra do homem 

3. A paz envolve o ser humano na sua integridade e supõe o empenho da pessoa inteira: é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação. Como escreveu o Bem-aventurado João XXIII na Encíclica Pacem in terris – cujo cinquentenário terá lugar dentro de poucos meses –, a paz implica principalmente a construção duma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça. A negação daquilo que constitui a verdadeira natureza do ser humano, nas suas dimensões essenciais, na sua capacidade intrínseca de conhecer a verdade e o bem e, em última análise, o próprio Deus, põe em perigo a construção da paz. Sem a verdade sobre o homem, inscrita pelo Criador no seu coração, a liberdade e o amor depreciam-se, a justiça perde a base para o seu exercício. Para nos tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo qual se implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigênito. Assim, o homem pode vencer aquele germe de obscurecimento e negação da paz que é o pecado em todas as suas formas: egoísmo e violência, avidez e desejo de poder e domínio, intolerância, ódio e estruturas injustas. A realização da paz depende, sobretudo, do reconhecimento de que somos, em Deus, uma única família humana. Esta, como ensina a Encíclica Pacem in terris, está estruturada mediante relações interpessoais e instituições sustentadas e animadas por um «nós» comunitário, que implica uma ordem moral, interna e externa, na qual se reconheçam sinceramente, com verdade e justiça, os próprios direitos e os próprios deveres para com os demais. A paz é uma ordem de tal modo vivificada e integrada pelo amor, que se sentem como próprias as necessidades e exigências alheias, que se fazem os outros coparticipantes dos próprios bens e que se estende sempre mais no mundo a comunhão dos valores espirituais. É uma ordem realizada na liberdade, isto é, segundo o modo que corresponde à dignidade de pessoas que, por sua própria natureza racional, assumem a responsabilidade do próprio agir. A paz não é um sonho, nem uma utopia; a paz é possível. Os nossos olhos devem ver em profundidade, sob a superfície das aparências e dos fenômenos, para vislumbrar uma realidade positiva que existe nos corações, pois cada homem é criado à imagem de Deus e chamado a crescer contribuindo para a edificação de um mundo novo. Na realidade, através da encarnação do Filho e da redenção por Ele operada, o próprio Deus entrou na história e fez surgir uma nova criação e uma nova aliança entre Deus e o homem (cf. Jr 31, 31-34), oferecendo-nos a possibilidade de ter “um coração novo e um espírito novo” (cf. Ez 36, 26). Por isso mesmo, a Igreja está convencida de que urge um novo anúncio de Jesus Cristo, primeiro e principal fator do desenvolvimento integral dos povos e também da paz. Na realidade, Jesus é a nossa paz, a nossa justiça, a nossa reconciliação (cf. Ef 2, 14; 2 Cor 5, 18). O obreiro da paz, segundo a bem-aventurança de Jesus, é aquele que procura o bem do outro, o bem pleno da alma e do corpo, no tempo presente e na eternidade. A partir deste ensinamento, pode-se deduzir que cada pessoa e cada comunidade – religiosa, civil, educativa e cultural – é chamada a trabalhar pela paz. Esta consiste, principalmente, na realização do bem comum das várias sociedades, primárias e intermédias, nacionais, internacionais e a mundial. Por isso mesmo, pode-se supor que os caminhos para a implementação do bem comum sejam também os caminhos que temos de seguir para se obter a paz. 

Construtores da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua integridade 

4. Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a começar da concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida. Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana, chegando a defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não se deem conta de que, assim, estão propondo a prossecução duma paz ilusória. A fuga das responsabilidades, que deprecia a pessoa humana, e mais ainda o assassinato de um ser humano indefeso e inocente nunca poderão gerar felicidade nem a paz. Na verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem estar tutelado o direito à vida dos mais frágeis, a começar pelos nascituros? Qualquer lesão à vida, de modo especial na sua origem, provoca inevitavelmente danos irreparáveis ao desenvolvimento, à paz, ao ambiente. Tão pouco é justo codificar ardilosamente falsos direitos ou opções que, baseados numa visão redutiva e relativista do ser humano e com o hábil recurso a expressões ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida. Também a estrutura natural do matrimônio, como união entre um homem e uma mulher, deve ser reconhecida e promovida contra as tentativas de tornar, juridicamente, equivalente a formas radicalmente diversas de união que, na realidade, a prejudicam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu caráter peculiar e a sua insubstituível função social. Estes princípios não são verdades de fé, nem uma mera derivação do direito à liberdade religiosa; mas estão inscritos na própria natureza humana – sendo reconhecíveis pela razão – e consequentemente comuns a toda a humanidade. Por conseguinte, a ação da Igreja para os promover não tem carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, independentemente da sua filiação religiosa. Tal ação é ainda mais necessária quando estes princípios são negados ou mal entendidos, porque isso constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma ferida grave infligida à justiça e à paz. Por isso, uma importante colaboração para a paz é dada também pelos ordenamentos jurídicos e a administração da justiça quando reconhecem o direito ao uso do princípio da objeção de consciência face a leis e medidas governamentais que atentem contra a dignidade humana, como o aborto e a eutanásia. Entre os direitos humanos basilares mesmo para a vida pacífica dos povos, conta-se o direito dos indivíduos e comunidades à liberdade religiosa. Neste momento histórico, torna-se cada vez mais importante que este direito seja promovido não só negativamente, como liberdade de – por exemplo, de obrigações e coações quanto à liberdade de escolher a própria religião –, mas também positivamente, nas suas várias articulações, como liberdade para: por exemplo, para testemunhar a própria religião, anunciar e comunicar a sua doutrina; para realizar atividades educativas, beneméritas e de assistência que permitem aplicar os preceitos religiosos; para existir e atuar como organismos sociais, estruturados de acordo com os princípios doutrinais e as finalidades institucionais que lhe são próprias. Infelizmente, vão-se multiplicando, mesmo em países de antiga tradição cristã, os episódios de intolerância religiosa, especialmente contra o cristianismo e aqueles que se limitam a usar os sinais identificadores da própria religião. O construtor da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento econômico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. 
Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos. E, entre os direitos e deveres sociais atualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao fato, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento econômico dependeria, sobretudo, da liberdade total dos mercados. Assim, o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos econômicos e financeiros. A propósito disso, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões econômicas, sociais e políticas exigem que se continue “a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção”. Para se realizar este ambicioso objetivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos. 

Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia 

5. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspectiva duma vida boa, duma conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos. Para sair da crise financeira e econômica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo econômico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento econômico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. Concretamente, na atividade econômica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade econômica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo, sente-se trabalhando não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos. No âmbito econômico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes econômicos e com um controle insuficiente por parte dos governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e econômico. 

Educação para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições 

6. Desejo veementemente reafirmar que os diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação social. Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, econômico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em si o primordial projeto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino. A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização de uma cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família, nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida e do amor. Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça. Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolares e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as atividades econômicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz. 

Uma pedagogia do construtor da paz 

7. Concluindo, há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as obras de paz concorrem para realizar o bem comum e criam o interesse pela paz, educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmosfera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental será “dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar”, de modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5, 21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. Jesus encarna o conjunto destas atitudes na sua vida até ao dom total de Si mesmo, até «perder a vida» (cf. Mt 10, 39; Lc 17, 33; Jo 12, 25). E promete aos seus discípulos que chegarão, mais cedo ou mais tarde, a fazer a descoberta extraordinária de que falamos no início: no mundo, está presente Deus, o Deus de Jesus Cristo, plenamente solidário com os homens. Neste contexto, apraz-me lembrar a oração com que se pede a Deus para fazer de nós instrumentos da sua paz, a fim de levar o seu amor onde há ódio, o seu perdão onde há ofensa, a verdadeira fé onde há dúvida. Por nossa vez, pedimos a Deus, juntamente com o Beato João XXIII, que ilumine os responsáveis dos povos para que, junto com a solicitude pelo justo bem-estar dos próprios concidadãos, garantam e defendam o dom precioso da paz; inflame a vontade de todos para superarem as barreiras que dividem, reforçarem os vínculos da caridade mútua, compreenderem os outros e perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias, de tal modo que, em virtude da sua ação, todos os povos da terra se tornem irmãos e floresça neles e reine para sempre a tão suspirada paz. Com esta invocação, faço votos de que todos possam ser autênticos obreiros e construtores da paz, para que a cidade do homem cresça em concórdia fraterna, na prosperidade e na paz. 

Vaticano, 21 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MENSAGEM DO MINISTRO PROVINCIAL PARA SOLENIDADE DO NATAL

PROVÍNCIA FRANCISCANA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL
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Aos Confrades, na passagem do Natal do Senhor de 2012.

Caros confrades, 
“O Senhor lhes dê a Paz!” 

 Ao celebrarmos o Natal do Senhor, “a festa das festas” (cf. 2 C 199) para nosso irmão e pai Francisco de Assis, queremos viver em nossas fraternidades o sentido profundo do mistério da Encarnação do Filho do Altíssimo em nossa história. E ao contemplarmos na fé esse mistério, vem-nos à mente a afirmação do apóstolo João em sua primeira carta: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus mas foi Ele que nos amou e nos enviou o Seu Filho [...]” (Jo 1,10). 

A Encarnação do Filho de Deus em nossa história é, então, a grande declaração do amor do Pai por toda a humanidade e que encontra a sua plenitude no mistério pascal de Jesus. Esta é a razão pela qual Tomás de Celano escreve que São Francisco “gostava tanto de lembrar a humildade da Encarnação e o amor da Paixão do Senhor, que nem queria pensar em outras coisas” (cf. 1 C 84). 

Neste Natal meditemos sobre a “humildade da Encarnação” para podermos encontrar o sentido verdadeiro de nossa condição humana: somos pequenos e insignificantes dentro do mistério da vida e da imensidão do universo! A grandeza da humanidade reside justamento no reconhecimento de nossa pequenez e na certeza do amor infinito que recebemos do Pai em Seu Filho, que se fez um de nós! 

As dificuldades na convivência humana, as injustiças, as guerras e a destruição da natureza têm sua raiz justamente em nossa prepotência! Perdemos o ponto de referência e equilíbrio que nos une a todas as realidades que nos cercam e das quais dependem o sentido de nossa vida, missão e felicidade neste planeta! A prepotência que invadiu nosso coração nos desumaniza! O Natal é uma nova oportunidade que nos é oferecida por Aquele que veio ao nosso encontro assumindo a nossa condição humana! Somos “húmus” que recebeu o sopro amoroso de Deus e o calor de Sua Palavra Eterna que veio morar entre nós! 

Caríssimos irmãos, neste Natal, diante do mistério da Encarnação do Senhor, façamos a mesma pergunta que fazia nosso pai Francisco: “Quem és tu, ó dulcíssimo Deus? E quem sou eu...? Quem és tu, Senhor de infinita bondade e sapiência, que te dignas visitar-me a mim que sou um verme vil e abominável?” (cf.Csd 3ª) 

Jesus assumiu nossa pequenez e nossa insignificância justamente para mostrar que aí reside nossa grandeza e dignidade de filhos de Deus! É esta a grande verdade que nos é proclamada no dia de Natal: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). 

Um feliz e santo Natal! E que em 2013, motivados pelo amor de Deus, demos o melhor de nós para construirmos um mundo melhor!

Frei Marconi Lins, OFM
Ministro Provincial

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

MENSAGEM DO MINISTRO GERAL PARA SOLENIDADE DO NATAL

Queridos irmãos e irmãs! 

“Eis que vos anuncio uma boa notícia que será de grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10). A Palavra, que desde o princípio estava junto de Deus, pois era Deus (cf. Jo 1,1), “ao cumprir-se a plenitude dos tempos” (Gl 4,4) se faz Emanuel, Deus está conosco (cf. Mt 1,23). Este é o Evangelho de Deus “aos homens de boa vontade” de todos os tempos (cf. Lc 2,14). Esta é a Boa Notícia que mudou a história da humanidade: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria” (Is 9,1); e que muda a história de todos aqueles que a acolhem (cf. Jo 1,12). 

É Natal. Chegou a hora de despir-se da veste de luto e aflição (cf. Br 5,1). “O Senhor fez grandes coisas por nós, por isso estamos alegres” (Sl 125,3). A humanidade aguardava paciente o fruto precioso da terra (cf. Tg 5,7). Finalmente “a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens” (Tt 2,11). É Natal! Deus vem para permanecer conosco: “Alegraivos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos” (Fl 4,4). 

O Natal nos recorda que não estamos sozinhos, que Deus caminha conosco pelos caminhos do mundo. Esta presença é causa de imensa alegria (cf. Mt 18,8-9), fundamento de uma esperança certa para aqueles que acolhem a boa notícia com fé reta e a tornam presente na vida com caridade perfeita (cf. OC). O Natal nos recorda também a necessidade de sermos portadores da Boa Notícia, aos de perto e aos de longe (Ef 2,17), aos que se sentem próximos e aos que pensam estar afastados. Quem se encontrou com Cristo não pode fazer outra coisa que converter-se em anunciador da Verdade, como fez a samaritana (cf. Jo 4,28-29). Quem descobriu Cristo como o tesouro de sua vida não pode deixar de comunicar aos demais esta descoberta, como a mulher que encontra a moeda (cf. Lc 15,8ss). Como os pastores, quem encontrou Cristo não pode fazer outra coisa do que comunicar a todos esta boa notícia (cf. Lc 2,16ss). E faz isto com alegria, como os pastores (cf. Lc 2,20); sem demora, como os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,33); com audácia, como os primeiros discípulos (cf. At 5,22ss); e com criatividade, como fizeram nossos grandes missionários ao longo dos 800 anos de nossa história. A alegria que produz tal descoberta (cf. Mt 13,44), a palavra que arde em um coração enamorado pelo Senhor (cf. Lc 24,32), a experiência de quem se sente agraciado por um olhar amoroso do Senhor (cf. Mc 10,21), põe os pés em movimento para “sair” e ir ao encontro do outro, cruzando todo tipo de barreiras culturais, sociais e, inclusive, religiosas. O ardor missionário é o melhor teste para saber se já encontramos ou não a Cristo. 

“Ai de mim se não evangelizar!” 

“Evangelizar é a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda” (EN 13-14). Considerando os muitos batizados que estão pouco vangelizados, a triste realidade de muitos cristãos que o são só de nome, e o fato de que, depois de 2000 anos, continuam sem conhecer a Cristo, é necessário reafirmar sem medo a urgência e a necessidade da nova evangelização (=NE) (cf. VD 96). 

Neste momento, a Igreja necessita de um novo impulso missionário (cf. RM 30ss); necessita deixar-se impregnar pelo ardor da pregação apostólica (cf. NMI 40), para comunicar Cristo, com serena audácia, a quem não o conhece ainda (missão ad gentes), e para tornar compreensível nos novos desertos do mundo a palavra da fé que nos regenerou para a vida (missão inter gentes). Nos umbrais do terceiro milênio, a Igreja necessita renovar o entusiasmo na comunicação da fé, em anunciar e transmitir o Evangelho, “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16), e que em última instância se identifica com a pessoa de Jesus Cristo (cf. 1Cor 1,24). O Espírito nos dá a parresia para tal anúncio (cf. At 2,29). 

Por isso, se queremos “conservar o frescor, o impulso e a força para anunciar o Evangelho” (EN 15), como seguidores de Jesus sentimos a necessidade da conversão, de deixar-nos evangelizar para poder evangelizar, como se repetiu muitas vezes na sala sinodal, na XIII Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé (celebrada no Vaticano de 7 a 28/10/2012). Somente assim, vivendo de maneira renovada a própria consciência comunitária da fé, reencontrando o entusiasmo para comunicar a fé, poderemos anunciar a Boa Notícia nas novas situações culturais que se criaram nas últimas décadas. Anúncio e testemunho vão de mãos dadas. 

Por outro lado, como também reconheceu o Sínodo, Deus não está ausente só na vida da sociedade, mas também na vida das próprias comunidades eclesiais. O secularismo, a indiferença e o relativismo entraram de cheio na vida de tantos batizados, sacerdotes e consagrados de maneira que tais atitudes já não são somente uma ameaça externa, mas também um conflito cotidiano. Por tudo isso, a NE é, antes de tudo, uma chamada e uma pergunta feita pela Igreja a si mesma, para que reforce em todos os batizados a fé em Cristo e nos comprometamos a ser propositivos neste novo contexto cultural no qual a Igreja é chamada a viver sua fé e a transmiti-la. Trata-se, portanto, de reavivar a fé que corre o risco de apagar-se em contextos que obstaculizam seu enraizamento pessoal, sua presença social, a clareza de seus conteúdos e seus frutos coerentes, primeiramente em nós para em seguida reavivá-la nos outros. O apelo à evangelização se traduz em uma chamada à conversão. Chamados a evangelizar, é nosso dever vencer o medo com a fé, o desânimo com a esperança, a indiferença com o amor. 

A isto mira, precisamente, a NE. Esta é dirigida, em primeiro lugar, a todos os batizados, necessitados todos, também nós consagrados, de redescobrir as razões de sua/nossa fé e de ser evangelizados para poder evangelizar. A NE também tem como destinatários todos quantos abandonaram sua fé e por múltiplas razões se afastaram da Igreja. Finalmente, a NE se dirige àqueles que desejam crer e buscam um sentido pleno para a sua vida. Todos esses, os crentes, os afastados e os que desejam crer, buscam pessoas em condição de comunicar-lhes, mais com o testemunho de sua vida que com sua palavra, a alegria do encontro com Cristo. Como se disse no Sínodo não há homem ou mulher que em sua vida, como a mulher de Samaria, não se encontre junto a um poço com uma vasilha vazia, com a esperança de encontrar Aquele que pode dar significado pleno à existência. Como Jesus no poço de Sicar, particularmente nós os frades do povo, temos de sentir a necessidade de sentarmo-nos junto aos homens e às mulheres de nosso tempo para tornar presente o Senhor em suas vidas, de modo que possam encontrá-lo, pois somente ele é água que dá a vida verdadeira e eterna (cf. Jo 4,5-42). 

“A caridade de Cristo também nos impele” 

Nossa Ordem, junto com outras Ordens e Institutos de Vida Consagrada, contribuiu de maneira mui importante na transmissão da fé, aos de perto, através das missões populares e da evangelização ordinária, e aos de longe, através da missão ad gentes. Acolhendo o convite que nos vem da Igreja, não podemos deixar de colaborar, a partir de nossa experiência, e com a criatividade que sempre nos caracterizou, na tarefa da nova evangelização. Isso requer de nossa parte: viver com radicalidade e gozo nossa própria identidade franciscana; uma vida que mostra a primazia absoluta de Deus e que, através da vida fraterna em minoridade, expresse a força humanizadora do Evangelho; plena disponibilidade para ir às fronteiras geográficas, sociais e culturais da evangelização; situar-nos nos novos areópagos da missão (cf. VC 96-99); e o compromisso pela salvaguarda da criação, a construção da paz e a promoção da justiça, especialmente na defesa dos direitos dos que sofrem por causa de situações de exclusão em nossas sociedades. Uma vida franciscana, plenamente evangélica, evangelizada e evangelizadora, em profunda comunhão com os pastores e em estreita colaboração com os leigos, e fiel ao nosso próprio carisma, oferecerá uma contribuição muito significativa à NE. 

Fiéis ao convite do Concílio Vaticano II, queremos manter viva a capacidade permanente de perscrutar os sinais dos tempos e de interpretá-los à luz do Evangelho (cf. GS 4). Como seguidores do Poverello, queremos manter em todo o momento um olhar cheio de simpatia ao nosso mundo amado por Deus (Jo 3,16). Não pode haver lugar para o pessimismo no coração e na mente daqueles que se sentem chamados a viver o Evangelho, seguindo as pegadas de Cristo. Ao mesmo tempo queremos viver em constante discernimento evangélico (cf. 1Ts 5,21) para “distinguir entre o que vem do Espírito e o que lhe é contrário” (VC 73). Isso nos permitirá descobrir que, apesar das muitas dificuldades que atualmente se apresentam para a transmissão da fé com o predominante secularismo, o crescente indiferentismo e relativismo, este nosso momento histórico oferece também grandes oportunidades para o anúncio da Boa Notícia, o que nos move a empreender, com novo ardor, novos métodos, e novas expressões, o desafio da nova evangelização. 

Novo ardor. O novo ardor exige conversão pessoal, renovar constantemente a paixão por Cristo, pela Verdade e pelo Evangelho. O novo ardor questiona e faz com que nos perguntemos onde está nosso coração, quem continua sendo o “amor primeiro” na vida de todos os dias, se nossas vidas estão unificadas em torno de Cristo ou fragmentadas e divididas, se estamos centrados no único necessário ou distraídos em tantas coisas que, embora sendo boas, não são o mais importante. O novo ardor questiona, em definitivo, nossa vida cotidiana e o estilo da mesma. A NE consiste em propor de novo ao coração e à mente, não poucas vezes distraídos e confusos, dos homens e das mulheres de nosso tempo e, sobretudo a nós mesmos, a beleza e a novidade perene do encontro com Cristo. Para manter o ardor ou reacendê-lo, é necessário contemplar o rosto de Jesus Cristo, entrar no mistério de sua existência, manter sempre o coração voltado para o Senhor (RnB 22,19). 

Novos métodos. Isto exige uma conversão pastoral, uma renovação do método de evangelização. Os novos métodos tem muito a ver com o uso dos novos meios de comunicação social, chamados a facilitar a transmissão da fé, particularmente ao mundo dos jovens que buscam sentido pleno para suas vidas e que guardam em seu coração aspirações profundas de autenticidade, de verdade, de liberdade, de generosidade, às quais somente Cristo pode ser resposta capaz de saciá-las. Devemos reservar uma atenção particular ao mundo das comunicações sociais, campo no qual se entrelaçam tantas vidas, tantas interrogações e tantas dúvidas. Os novos métodos também tem a ver com os conteúdos. Por outra parte, hoje, em muitas circunstâncias, se faz necessário um primeiro anúncio do Kerigma. Esse anúncio, em muitas ocasiões, será de tu a tu, e sempre há de ir acompanhado por um verdadeiro testemunho de vida cristã. 

Novas expressões. Isso comporta uma conversão estrutural. Há estruturas que, em lugar de facilitar a transmissão da fé, a dificultam. Aqui se impõem, uma vez mais, lucidez e criatividade. Neste contexto também se faz necessário liberar a jaula da linguagem que muitas vezes torna incompreensível a Boa Notícia que queremos transmitir. Si queremos chegar às pessoas, especialmente aos jovens, se faz necessário entrar na cultura da linguagem da comunhão digital, sem esquecer nunca que a linguagem compreensível para todos, e que não pode ser substituída por nenhuma outra, é a do testemunho e da santidade. Novas expressões comportam também criar novos poços, onde nossos contemporâneos possam saciar sua sede de plenitude e onde, a partir da experiência de deserto – Bento XVI durante a homilia da inauguração do Ano da Fé falou de “desertificação espiritual”-, possam descobrir a alegria de crer. Com a Igreja sentimos o dever de individuar e imaginar novos instrumentos e novas palavras para tornar compreensível o anúncio da Boa Noticia, também nos novos desertos do mundo. A leitura Orante da Palavra nos ajudará a encontrar esses novos poços onde nossos contemporâneos podem encontrar-se com Jesus. 

“Acreditei, por isso falei” 

A NE, porque tem seu centro em Cristo e não é tanto questão de estratégias senão de dar qualidade ao nosso testemunho, vai estreitamente unida à fé. E não se trata de uma fé abstrata, de noções, como diria o Cardeal Newman, mas de uma fé feita experiência, uma fé vivida, celebrada e confessada, como nos pede o Papa Bento em Porta Fidei; uma fé que tenha como fundamento o encontro com um acontecimento, com uma pessoa que é Jesus, que dá um novo horizonte à vida e com isso uma orientação decisiva (cf. Deus caritas est 1). Uma fé que seja, antes de tudo, adesão pessoal a Cristo, confiança sem fissuras nele (cf. LD, 1ss). 

Os biógrafos de Francisco o definem como novus evangelista, enviado por Deus para despertar o coração dos homens e das mulheres de seu tempo a um verdadeiro sentido de presença e de ação de Deus em suas vidas. O Poverello quis embarcar em uma nova evangelização da sociedade e da cultura de seu tempo. Sua novidade não consistiu tanto em pregar o Evangelho, pois isso o faziam também muitos outros, mas em uma nova atualização do Evangelho, com um compromisso apaixonado e uma encarnação criativa, tudo isso possível graças à sua fé granítica n’Aquele ao qual confessa como o TUDO de sua vida (cf. LD, 4). 

Queridos irmãos e irmãs! À distância de vinte séculos a Igreja nos recorda o mandato do Senhor: “Ide ao mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Não há tempo a perder. A paixão por Cristo e a compaixão pela humanidade, que deve arder em nossos corações, não nos permitem aninhar cansaços. É hora de colocar-nos em caminho, dispostos a cruzar todo tipo de barreiras, bem equipados de fé reta, esperança certa e caridade perfeita. 

 É Natal 

É Natal! Queridos irmãos e irmãs: seguindo o exemplo dos pastores, da samaritana e de tantos outros, coloquemo-nos em caminho para conduzir os homens e as mulheres de hoje para fora do deserto, rumo aos poços de água viva, rumo a Cristo que nos dá a vida e a vida em plenitude. 

Feliz Natal a todos, com o desejo de que Cristo nasça em nossos corações para levá-lo aos outros. 

Solenidade da Imaculada, Roma, 8 de dezembro de 2012 

Vosso irmão, Ministro e servo. 

Frei José Rodríguez Carballo, OFM 
Ministro geral, OFM

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=30011
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