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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MARIA E JOSÉ E O ADVENTO DE JESUS


Bem próximos do Natal de Jesus, estamos na quarta semana do Advento, na qual emerge com toda força, a presença da mulher no mistério do Deus que quer vir ao encontro da humanidade! Maria de Nazaré, uma jovem que entre tantas outras em Israel, aguardava a realização das promessas de Deus e a vinda do Messias, vê-se escolhida para acolher de modo muito especial o Filho Unigênito do Altíssimo!

O anjo Gabriel revela os planos que Deus tinha para Maria: “Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Maria, por sua vez, fica abismada pelo mistério que a envolve e se questiona sobre o que está se passando! O anjo Gabriel faz-lhe a revelação: “Não temas, Maria, pois obtiveste graça junto a Deus. Eis que engravidarás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo...” (Lc 1,30-32).

Maria, atônita, diante do mistério, só sabe que é virgem e está noiva de José! Também José está nos planos do Altíssimo Deus. Ele cuidará, com Maria, do Messias esperado pelo povo de Israel.

Diante do que não pode ser entendido a não ser pela fé e pela entrega radical nas mãos de Deus, Maria pronuncia o “Sim” que mudará o rumo da história humana e de todo o universo! Deus vem ao encontro do ser humano, assumindo a nossa humanidade para que compreendamos mais uma vez, e de forma definitiva, que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, como já havia sido revelado nas Escrituras do povo de Israel! Mas desta vez, tocados pelo Verbo eterno do Pai que assumiu nossa carne, fomos feitos filhos adotivos e podermos chamar Deus de “Abá”, “Pai” (cf. Gl 4,5).

Eis o que fez o “Sim” da jovem Maria ao convite do Altíssimo! Eis a bondade de Deus que manifesta o Seu amor e Sua misericórdia pela humanidade e por toda a Criação, envolvendo-as em seu plano de eternidade! Maria não entende o mistério, mas se deixa envolver por ele! E com liberdade, na fé de seus antepassados, torna-se a participante por excelência do mistério de Deus! Por isso, nesta última semana do Advento, às vésperas do Natal de Jesus, louvemos e adoremos o Deus Altíssimo porque Ele é Bom!

Aqui entendemos o que diz João em sua primeira carta: “Deus é amor. Eis como se manifestou o amor de Deus entre nós: Deus enviou Seu Filho único ao mundo, para que vivêssemos por meio dele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus mas foi Ele que nos amou e nos enviou Seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados” (cf. 1Jo 4,8-10).

E Maria, a bem-aventurada que acreditou nas promessas do Altíssimo, disse “Sim” e o “Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). E José, “que era um homem justo” (cf. Mt 1,19), também acolheu o mistério de Deus que envolveu Maria “recebendo em sua casa” (cf. Mt 1,24).

Maria e José acolheram o Altíssimo Deus que veio nos visitar e morar conosco em Jesus, o Emanuel, o “Deus conosco”!

Que também nós pronunciemos nosso “sim”, acolhendo Jesus, o Messias de Deus, através de gestos concretos de solidariedade, sobretudo para com os pobres e sofredores, e também pelo compromisso com a defesa da vida em sua diversidade!

Frei Marconi Lins, OFM
Ministro Provincial



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DEVOÇÃO FRANCISCANA A MARIA

A vida segundo o Evangelho serve, para Francisco, de base em vista de uma compreensão da revelação cristã: exige unidade entre esforço cotidiano e oração, encontro com Deus na vida cotidiana neste mundo e com os outros. Francisco nunca emite um pensamento de fé, um conceito teológico sem conexão com atitude vital global e sintética que possa abarcar a totalidade da existência.

Sua espiritualidade está estruturada em suas intuições básicas e concatenadas, a saber:

a) penitência ou conversão da vida carnal, ou seja, egocêntrica, para encontrar Cristo e Deus no irmão esquecido e abandonado à mercê das forças de morte presentes no mundo e na sociedade;

b) o consequente distanciamento destas forças, associando-se aos "menores";

c) a - pobreza voluntária para obrigar a sociedade a reconhecer, respeitar e honrar, através do retomo à Justiça, a dignidade ofendida dos pequenos; e, finalmente, a alegria ao pensar nas promessas escatológicas de Deus, em sua presença onde está o amor e na atualização da Páscoa em nossas celebrações.
São estes aspectos que Francisco encontra, reverencia, canta e Invoca em Maria.

Maria é, para Francisco, a "Senhora" pobre (2Cel 83) e Deus, escolhendo-a por Mãe, compartilha a pobreza com ela (2CtFi4-5) como caminho em vista da salvação dos homens, levando-os a viver a paternidade divina a partir de uma fraternidade humana renovada, que consiste na solidariedade real com os pobres, uma vez que, como dizia Francisco, é dignidade real e insígne nobreza "seguir o Senhor que, sendo rico, se fez pobre por nós" [2Cel 73) e partilham a pobreza salvífica de Jesus da qual devem participar todos os seus seguidores.


Ao exigir a pobreza dos frades, Francisco os coloca em relação com Cristo que foi "pobre e peregrino e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" (RNB 9,6). E a tua última vontade é "seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima e nela perseverar até o fim (UIV 1).


Era com lágrimas nos olhos que Francisco meditava na pobreza do Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe (2Cel 2,00: LM 7, 1). Este pranto amargurado de Francisco diante do que Cristo e Maria passaram será mal entendido se não for colocado junto com a escolha de pobreza voluntária que fez e com
a honra que tributava a todos os pobres: a pobreza voluntária, unida à alegria que a acompanha, provém do fato de que para Francisco o Evangelho do Reino e da presença misteriosa de Deus em nosso meio se tomaram mais importantes do que os próprios interesses, e, para acolhê-los, é preciso mesmo esquecer os interesses próprios, "converter-se", "fazer penitência".

O Deus que decidiu partilhar a pobreza com Maria tornando-se seu filho é o Deus novo que transforma em supremo o que é ínfimo, é o Deus diferente, que não age a partir de nossa lógica, que escolhe a pobreza e o pobre como seu "sacramento", como seu sinal e seu símbolo.

Celano o diz com multa felicidade ao falar da compaixão de Francisco para com os pobres. Francisco "se derretia todo pelos pobres". Desejava sempre "estender a mão (aos pobres)". Celano observa que ele "era de uma clemência nata" que tinha sido redobrada teologalmente: "redobrada pela piedade infusa". "Qualquer carência ou penúria que visse em alguém dirigia seu pensamento em rápida conversão para Cristo.

Via o Filho da pobre Senhora em todos os pobres, pois o levava nu em seu coração como ela o tinha carregado em seus braços" [2Cel 83). Neste aspecto também Francisco revela ter sido o pai dos teólogos franciscanos que não conhecem outra teologia, outra cristologia ou mariologia senão aquela que, refletindo sobre a vida de Cristo e de Maria, neles descobre aquilo que torna nossa existência melhor.


Francisco tem consciência que a salvação de Deus é para todos, mas sabe também que a maneira como ela se manifesta não é igual para todos: Deus, na encarnação - "kénosis", assumindo a condição pobre de sua Mãe e aceitando o sofrimento inerente à finitude humana, exalta os pobres e os humilhados, os fracos e os sofredores que, depois da glorificação de Cristo e de Maria, são o espelho no qual se Imprime e se perpetua a Imagem de Deus que se exprimiu entre nós, em Cristo e Maria, pobres e sofredores: "Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. Também nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa" (2Cel 85).


Por outro lado, Deus mesmo ao decidir manifestar-se a nós na pobreza de Jesus e de Maria e manifestando-se agora nos pobres e sofredores de todos os modos contesta o - mundo desumano, a fim de que todos os que são responsáveis por criar e manter esta situação desumana e, portanto, indigna da família de Deus, redescubram sua humanidade, afastando-se de tal situação como fez, de modo radical, Francisco com sua pobreza voluntária.


A devoção mariana permite ao Poverello viver esta dimensão teologal da pobreza e as mais profundas raízes da alegria dos "menores". Estes, em sua própria pobreza e na dos outros, experimentam como mais importante do que todos os interesses particulares, a presença de Deus no mundo e o seu Reino que vem.


É precisamente nesta alegria franciscana, pela presença divina, que a pobreza não é somente uma teoria, mas de grande eficácia: o Deus da alegria é o Deus que reverencia os pobres e denuncia forças tenebrosas que são causa de tanto sofrimento. Ao realizar esta denúncia Deus não prega o ódio aos que encarnam tais forças e se tornam seus instrumentos, aos que cedem a cobiças e ambições, mas partilhando com Maria a pobreza.


Francisco compreende a força presente na prática da pobreza evangélica, sem agressividade e ódio. Ao pobre que encontrou em Collestrada de Perúsia e que amaldiçoava "com ódio mortal" o patrão "que lhe havia tirado os bens", Francisco diz: "Irmão, pelo amor de Deus perdoa teu patrão: assim haverás de salvar tua alma..." (2Cel 89).


O amor cavaleiresco de Francisco por Maria certamente não é uma fantasia. Esta expressão, no entanto, é ambígua e pode levar a pensar numa devoção feita de "galanteios", quando na realidade se trata de expressão de uma piedade caracterizada pela participação na alegria de Maria que, em sua pobreza, se torna solidária dos pobres para participar na obra da encarnação de Deus, cuja paternidade só pode ser fundamentalmente invocada por aqueles que se unem a Cristo, e a tudo o que ele fez para que pudéssemos vencer a desumanidade do que sofre e possibilitar o nascimento de uma nova humanidade sob a única soberania de Deus.


Fonte: Dicionário Franciscano
Site: http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/especiais/2008/imaculada_08/25.php

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ADVENTO: Vem, Senhor Jesus!

Ontem iniciamos mais um ano do calendário da Igreja. O primeiro domingo do Advento marca o começo de um novo ano litúrgico e a preparação da primeira grande festa do calendário cristão: o Natal de Jesus.

Advento significa chegada, vinda. Estamos esperando o Senhor que vem! É verdade que Ele já veio uma primeira vez, quando nasceu em Belém. Realizava-se assim, a promessa que Deus havia feito ao povo de Israel e que os profetas não cansavam de proclamar: o Messias, o Ungido de Deus vem nos salvar! Assim, o Natal celebra a primeira vinda de Jesus, o Salvador que veio nos trazer a mais bela notícia que a humanidade poderia receber: Deus nos ama e nos dá a sua salvação!

Infelizmente esta notícia proclamada e vivida pelo próprio Jesus, que nos amou até nos dar a vida na cruz, ainda não foi recebida por todos os homens. E até nós cristãos, que afirmamos acreditar na Boa Nova de Jesus, ainda não vivemos na prática, de maneira mais convincente, a Boa Nova da Salvação! Quem acredita e acolhe Jesus que nos veio dar a vida e a salvação que o Pai quer para todos nós, vive o mandamento do amor! (cf. Jo 15,12).

Como nós sabemos, Jesus passou pelo meio da humanidade fazendo o bem, mas foi perseguido, preso, torturado e morto numa cruz e ao terceiro dia ressuscitou de entre os mortos. Voltou para junto do Pai e nos prometeu: Vou voltar de novo! (cf. Mt 25,31s)

Mandou-nos o Espírito Santo para nos recordar e comprometer com a preparação de Sua segunda vinda!

Aqui compreendemos a plenitude da mensagem do tempo litúrgico do Advento: celebramos a primeira vinda de Jesus, seu nascimento, mas aguardamos a segunda vinda, o dia do julgamento final da humanidade!

Nossa atitude deve ser de espera, de expectativa, buscando ver no dia a dia, nos acontecimentos da história e da natureza os sinais que indicam a volta de Jesus. Nada de pânico nem de medo! Mas nada de cruzar os braços: espera-se o Senhor fazendo o que Ele fez, fazendo o bem a todos, trabalhando para que toda a humanidade e toda a criação se sintam abraçadas pelo amor misericordioso do Pai que Jesus nos veio dar com o seu nascimento!

Os sinais da destruição que nos causam medo somos nós mesmos que os provocamos: a fome gerada pelo egoísmo, a guerra, fruto da ganância, a violência que nasce da injustiça, a destruição da natureza provocada pelo nosso coração insensível ao amor e ao poder criador de nosso Deus... Mas os sinais da vinda do Senhor estão acontecendo! E nós podemos ser sinais de sua segunda vida, de seu advento definitivo, sendo para nossos irmãos e irmãs pessoas que falam e dão esperança a quem se sente só, desprotegida e desesperada!

Vamos preparar o Natal do Senhor, primeiramente rezando e meditando o mistério do Advento de Jesus e ao mesmo tempo fazendo algo de bom para o nosso próximo! O que você se propõe fazer para isso? Não perca a oportunidade de viver o Advento de Cristo e de acolhê-lo acolhendo o seu próximo, lembrando o que Ele mesmo disse: “Todas as vezes que fizestes o bem a um desses pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, ) Enquanto Jesus não chega definitivamente, nós buscamos fazer o bem e proclamamos com alegria e esperança: “Marana tha! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20)


Frei Marconi Lins, OFM

domingo, 21 de novembro de 2010

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

Para coroar o ano litúrgico, celebramos o solene encerramento, a festa de Cristo-Rei. Jesus é apresentado como rei nosso e do universo. Mas, o que significa chamar Jesus de “rei”? Não temos em nosso meio experiência próxima daquilo que é um rei. Por isso convém prestar bem atenção à 1ª leitura, que narra a consagração de Davi como rei de Israel. Davi não é apenas chefe do Estado e tampouco um rei considerado deus como os reis do Egito e da Babilônia. Ele é “filho de Deus”, chamado a exercer o reinado em obediência a Deus, o Único Senhor.
Ora, se Davi era um rei diferente, Jesus muito mais, como poderemos perceber no evangelho. Seu governo tem alcance além da morte, além do mundo; e este domínio, que supera tudo, ele o abre para o pecador que se converte, o “bom ladrão” crucificado ao seu lado. Jesus não é rei sobre um determinado pedacinho de nosso planeta, mas submete a si a morte e o pecado (cf. 1Cor 15,25-26). Tudo o que existe para a glória de Deus – de modo especial, a Igreja – encontra em Jesus seu chefe, sua cabeça – diz a 2ª leitura. Ele é rei por seu sangue redentor, pelo dom de sua vida, que vence o ódio, o desamor, o pecado.
Estamos aos poucos redescobrindo que o Reino de Deus, inaugurado por Jesus, deve ser implantado aqui na terra, na justiça e no amor fraterno. Mas não devemos perder de vista a dimensão eterna deste reino. Ele supera as realidades históricas, “encarnadas”. Ele atinge a relação mais profunda e invisível entre Deus e o homem. Ele é universal, não apenas no tempo e no espaço, mas sobretudo na profundidade, na radicalidade. O projeto de Deus, que Jesus veio, definitivamente, pôr em ação, não termina no horizonte de osso olhar físico. Seu alcance não tem fim. É uma grandeza que vence todo o mal, muito além daquilo que podemos verificar aqui e agora. É um reino que não apenas conquista o mundo, mas muda a sua qualidade. Por isso dedicamo-lhes todas as nossas forças e não ficamos de braços cruzados.
Este reino supera o pecado, como Jesus mostra, acolhendo o “bom ladrão”. Pois é o reino de amor. Porém, não legitima o pecado: Zaqueu, depois que se converteu, começou vida nova (Lc 19, 1-10). Se o bom ladrão tivesse continuado com vida, deveria ter mudado radicalmente seu modo de viver... Assim, para participarmos, já agora, deste reino de amor, justiça e paz, devemos deixar acontecer em nós a transformação que Jesus iniciou e pela qual ele deu a sua vida.


Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes


Fonte:
http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/liturgia/liturgiadominical/2010/novembro/211110c.php

sábado, 13 de novembro de 2010

ESPECIAL 17 DE NOVEMBRO: SANTA ISABEL DA HUNGRIA, PADROEIRA DA OFS


Isabel da Hungria, a princesa entre os pobres

Queridos irmãos e irmãs:


Hoje, eu gostaria de falar-vos sobre uma das mulheres da Idade Média que suscitou maior admiração: Santa Isabel da Hungria, chamada também de Isabel de Turíngia. Ela nasceu em 1207, na Hungria. Os historiadores discutem onde. Seu pai era André II, rico e poderoso rei da Hungria, o qual, para reforçar seus vínculos políticos, havia se casado com a condessa alemã Gertrudes de Andechs-Merania, irmã de Santa Edwirges, que era esposa do duque de Silésia. Isabel viveu na corte húngara somente nos primeiros quatro anos da sua infância, junto a uma irmã e três irmãos. Ela gostava de música, dança e jogos; recitava com fidelidade suas orações e mostrava atenção particular aos pobres, a quem ajudava com uma boa palavra ou com um gesto afetuoso.


Sua infância feliz foi bruscamente interrompida quando, da distante Turíngia, chegaram alguns cavaleiros para levá-la à sua nova sede na Alemanha central. Segundo os costumes daquele tempo, de fato, seu pai havia estabelecido que Isabel se convertesse em princesa de Turíngia. O landgrave ou conde daquela região era um dos soberanos mais ricos e influentes da Europa no começo do século XIII e seu castelo era centro de magnificência e de cultura. Mas, por trás das festas e da glória, escondiam-se as ambições dos príncipes feudais, geralmente em guerra entre eles e em conflito com as autoridades reais e imperiais. Neste contexto, o conde Hermann acolheu com boa vontade o noivado entre seu filho Ludovico e a princesa húngara. Isabel partiu de sua pátria com um rico dote e um grande séquito, incluindo suas donzelas pessoais, duas das quais permaneceriam amigas fiéis até o final. São elas que deixaram preciosas informações sobre a infância e sobre a vida da santa.


Após uma longa viagem, chegaram a Eisenach, para subir depois à fortaleza de Wartburg, o maciço castelo sobre a cidade. Lá se celebrou o compromisso entre Ludovico e Isabel. Nos anos seguintes, enquanto Ludovico aprendia o ofício de cavaleiro, Isabel e suas companheiras estudavam alemão, francês, latim, música, literatura e bordado. Apesar do fato do compromisso ter sido decidido por razões políticas, entre os dois jovens nasceu um amor sincero, motivado pela fé e pelo desejo de fazer a vontade de Deus. Aos 18 anos, Ludovico, após a morte do seu pai, começou a reinar sobre Turíngia. Mas Isabel se converteu em objeto de silenciosas críticas, porque seu comportamento não correspondia à vida da corte. Assim também a celebração do matrimônio não foi fastuosa e os gastos do banquete foram distribuídos em parte aos pobres. Em sua profunda sensibilidade, Isabel via as contradições entre a fé professada e a prática cristã. Não suportava os compromissos. Uma vez, entrando na igreja na festa da Assunção, ela tirou a coroa, colocou-a aos pés da cruz e permaneceu prostrada no chão, com o rosto coberto. Quando uma freira a desaprovou por este gesto, ela respondeu: "Como posso eu, criatura miserável, continuar usando uma coroa de dignidade terrena quando vejo o meu Rei Jesus Cristo coroado de espinhos?". Ela se comportava diante dos seus súditos da mesma forma que se comportava diante de Deus. Entre os escritos das quatro donzelas, encontramos este testemunho: "Não consumia alimentos sem antes estar certa de que procediam das propriedades e dos bens legítimos do seu marido. Enquanto se abstinha dos bens adquiridos ilicitamente, preocupava-se também por ressarcir àqueles que tivessem sofrido violência" (nn. 25 e 37). Um verdadeiro exemplo para todos aqueles que desempenham cargos: o exercício da autoridade, em todos os níveis, deve ser vivido como serviço à justiça e à caridade, na busca constante do bem comum.


Isabel praticava assiduamente as obras de misericórdia: dava de beber e de comer a quem batia à sua porta, distribuía roupas, pagava as dívidas, cuidava dos doentes e sepultava os mortos. Descendo do seu castelo, dirigia-se frequentemente com suas donzelas às casas dos pobres, levando pão, carne, farinha e outros alimentos. Entregava os alimentos pessoalmente e cuidava com atenção do vestuário e dos leitos dos pobres. Este comportamento foi informado ao seu marido, a quem isso não apenas não desagradou, senão que respondeu aos seus acusadores: "Enquanto ela não vender o castelo, estou feliz!". Neste contexto se coloca o milagre do pão transformado em rosas: enquanto Isabel ia pela rua com seu avental cheio de pão para os pobres, encontrou-se com o marido, que lhe perguntou o que estava carregando. Ela abriu o avental e, no lugar dos pães, apareceram magníficas rosas. Este símbolo de caridade está presente muitas vezes nas representações de Santa Isabel.


Seu casamento foi profundamente feliz: Isabel ajudava seu esposo a elevar suas qualidades humanas ao nível espiritual e ele, por outro lado, protegia sua esposa em sua generosidade com os pobres e em suas práticas religiosas. Cada vez mais admirado pela grande fé de sua esposa, Ludovico, referindo-se à sua atenção aos pobres, disse-lhe: "Querida Isabel, é Cristo quem você lavou, alimentou e cuidou" - um claro testemunho de como a fé e o amor a Deus e ao próximo reforçam e tornam ainda mais profunda a união matrimonial.


O jovem casal encontrou apoio espiritual nos Frades Menores, que, desde 1222, difundiram-se em Turíngia. Entre eles, Isabel escolheu o Frei Rüdiger como diretor espiritual. Quando ele lhe narrou as circunstâncias da conversão do jovem e rico comerciante Francisco de Assis, Isabel se entusiasmou ainda mais em seu caminho de vida cristã. Desde aquele momento, dedicou-se ainda mais a seguir Cristo pobre e crucificado, presente nos pobres. Inclusive quando nasceu seu primeiro filho, seguido de outros dois, nossa santa não descuidou jamais das suas obras de caridade. Além disso, ajudou os Frades Menores a construir um convento em Halberstadt, do qual o Frei Rüdiger se tornou superior. A direção espiritual de Isabel passou, assim, a Conrado de Marburgo.


Uma dura prova foi o adeus ao marido, no final de junho de 1227, quando Ludovico IV se associou à cruzada do imperador Frederico II, recordando à sua esposa que esta era uma tradição para os soberanos de Turíngia. Isabel respondeu: "Não o impedirei. Eu me entreguei totalmente a Deus e agora devo entregar você também". No entanto, a febre dizimou as tropas e o próprio Ludovico ficou doente e morreu em Otranto, antes de embarcar, em setembro de 1227, aos 26 anos. Isabel, ao saber da notícia, sentiu tal dor, que se retirou em solidão, mas depois, fortificada pela oração e consolada pela esperança de voltar a vê-lo no céu, interessou-se novamente pelos assuntos do reino. Outra prova, porém, a esperava: seu cunhado usurpou o governo de Turinga, declarando-se verdadeiro herdeiro de Ludovico e acusando Isabel de ser uma mulher piedosa incompetente para governar. A jovem viúva, com seus três filhos, foi expulsa do castelo de Wartburg e começou a procurar um lugar para refugiar-se. Somente duas de suas donzelas permaneceram junto dela, acompanharam-na e confiaram os três filhos aos cuidados de amigos de Ludovico. Peregrinando pelos povoados, Isabel trabalhava onde era acolhida, assistia os doentes, fiava e costurava. Durante este calvário, suportado com grande fé, paciência e dedicação a Deus, alguns parentes, que haviam permanecido fiéis a ela e consideravam ilegítimo o governo do seu cunhado, reabilitaram seu nome. Assim, Isabel, no início de 1228, pôde receber uma renda apropriada para retirar-se ao castelo familiar em Marburgo, onde vivia também seu diretor espiritual, Frei Conrado. Foi ele quem contou ao Papa Gregório IX o seguinte fato: "Na Sexta-Feira Santa de 1228, com as mãos sobre o altar da capela da sua cidade, Eisenach, onde havia acolhido os Frades Menores, na presença de alguns frades e familiares, Isabel renunciou à sua própria vontade e a todas as vaidades do mundo. Ela queria renunciar a todas as suas possessões, mas eu a dissuadi por amor aos pobres. Pouco depois, construiu um hospital, recolheu doentes e inválidos e serviu em sua própria mesa os mais miseráveis e abandonados. Tendo eu a repreendido por estas coisas, Isabel respondeu que dos pobres recebia uma especial graça e humildade" (Epistula magistri Conradi, 14-17).



Podemos ver nesta afirmação certa experiência mística parecida com a vivida por São Francisco: de fato, o Pobrezinho de Assis declarou em seu testamento que, servindo os leprosos, o que antes era amargo se transformou em doçura da alma e do corpo (Testamentum, 1-3). Isabel transcorreu seus últimos 3 anos no hospital fundado por ela, servindo os doentes, velando com os moribundos. Tentava sempre levar a cabo os serviços mais humildes e os trabalhos repugnantes. Ela se converteu no que poderíamos chamar de mulher consagrada no meio do mundo (soror in saeculo) e formou, com outras amigas suas, vestidas com um hábito cinza, uma comunidade religiosa. Não é por acaso que ela é padroeira da Terceira Ordem Regular de São Francisco e da Ordem Franciscana Secular.


Em novembro de 1231, foi vítima de fortes febres. Quando a notícia da sua doença se propagou, muitas pessoas foram visitá-la. Após cerca de 10 dias, ela pediu que fechassem as portas, para ficar a sós com Deus. Na noite de 17 de novembro, descansou docemente no Senhor. Os testemunhos sobre sua santidade foram tantos, que apenas quatro anos mais tarde, o Papa Gregório IX a proclamou santa e, no mesmo ano, consagrou-se a bela igreja construída em sua honra, em Marburgo.


Queridos irmãos e irmãs, na figura de Santa Isabel, vemos como a fé e a amizade com Cristo criam o sentido da justiça, da igualdade de todos, dos direitos dos demais e criam o amor, a caridade. E dessa caridade nasce a esperança, a certeza de que somos amados por Cristo e de que o amor de Cristo nos espera e nos torna, assim, capazes de imitá-lo e vê-lo nos demais. Santa Isabel nos convida a redescobrir Cristo, a amá-lo, a ter fé e, assim, encontrar a verdadeira justiça e o amor, como também a alegria de que um dia estaremos submersos no amor divino, no gozo da eternidade com Deus. Obrigado.

Benedictus PP XVI


Fonte: http://www.franciscanos.org.br

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